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365 dias depois: Desvendando a vitória Trump

Há exatos 365 dias, o atual presidente americano Donald J. Trump, venceu as eleições presidenciais americanas. Esse resultado foi extremamente surpreendente, não só para os americanos, mas para o mundo, já que todas as pesquisas apontavam que as chances de uma vitória de Hillary Clinton eram de 70% a até 99%. Até grandes nomes do Partido Republicano, como o Presidente da Câmara Paul Ryan, custaram para aceitá-lo como candidato. Dentro dessas circunstâncias, como as pesquisas podem ter errado tanto? Será que a vitória de Trump era realmente tão imprevisível assim?

Existe muita especulação sobre o que de fato levou Trump à vitória. Um candidato extremamente polêmico, Trump lançou a sua campanha no dia 16 de junho de 2015, numa coletiva de imprensa na Trump Tower em Nova Iorque. Desde o começo de sua campanha, abusou de uma retórica bastante incomum para um presidenciável americano.

Logo de cara, ele disse que o México manda “estupradores” e “traficantes” para os Estados Unidos e prometeu construir o infame muro na fronteira para barrar os imigrantes. Depois, ele também propôs proibir a entrada de todos os muçulmanos no país e se envolveu num escândalo onde foi acusado de ter assediado mulheres sexualmente. Em meio a tantas controvérsias, a mídia no começo se recusou a levá-lo a sério, mas continuou cobrindo todos os seus passos incansavelmente.

Papel da Mídia

A verdade é que a mídia não acreditava na possibilidade de uma vitória Trump. Um dos maiores erros cometidos por jornalistas foi não levar o Trump a sério, mas levá-lo ao pé da letra. Parece complicado, mas a lógica é bastante intuitiva: jornalistas liam as propostas do Trump literalmente. Eles queriam saber exatamente como Trump iria conseguir deportar tantos imigrantes não documentados ou livrar o mundo do Estado Islâmico. Só que na verdade, os eleitores do Trump tinham uma visão diferente sobre suas políticas polêmicas. Eles davam credibilidade ao Trump, mas não levavam as suas propostas ao pé da letra. Por exemplo, eles não enxergavam a construção do muro como algo concreto, mas como o símbolo de uma política de imigração mais forte e efetiva.

Isso nos leva a um outro ponto bastante importante, a cobertura de ambas as campanhas. Um estudo da Universidade de Harvard documenta que a maioria da cobertura de mídia foi negativa para os dois candidatos, mas seguiu muito mais a agenda política de Trump. Segundo Harvard, quando se falava de Hillary Clinton, se destacava principalmente os diversos escândalos acerca dos e-mails e da Fundação Clinton. Mas quando o foco era Trump, assuntos substanciais, principalmente políticas de imigração, eram proeminentes. Na verdade, a imigração apareceu como um assunto central na corrida presidencial e foi definitivo para a vitória do candidato republicano.

Proponho um desafio: você deve conseguir apontar exatamente qual era a política de imigração de Trump. Mas você sabe qual era a de Clinton? Quanto mais se apontava as políticas polêmicas de Trump, mais seus números de intenção de voto cresciam. Por quê? Porque muitos não estavam votando pela política, mas sim pela personalidade. E a cobertura extensa de Trump botou um holofote num discurso populista que contagiou aqueles que se sentiam excluídos do sistema eleitoral americano.

Maioria Silenciosa

Então é justo dizer que a mídia criou o Trump? Não, não é bem assim. Jornalistas não o criaram, eles simplesmente lhe deram um palco e muita exposição, especialmente nos meses antes das eleições primárias. Isso depois culminou com o desenvolvimento do escândalo dos e-mails de Clinton e da decisão do ex-diretor do FBI, James Comey, de reabrir as investigações nas vésperas da eleição final. Porém, não podemos esquecer da peça chave desse quebra cabeça: o eleitor.

Trump, com uma retórica controversa, porém simples e enfática, conseguiu mobilizar o apoio de uma grande parte da população, que se sentia excluída do processo político. Antes, a economia americana se movimentava em conjunção com a classe média. A economia crescia, e assim também cresciam os salários e a disponibilidade de emprego para os trabalhadores. Porém, nas últimas décadas, esse ritmo foi rompido e hoje a economia enriquece os que tem educação e capital, deixando os outros para trás. Essa parte da população americana tornou-se uma “maioria silenciosa”, que não se sentia mais representada pela elite política em Washington e buscou um candidato “diferente”, um “outsider”.

Divisão Cultural e de Classe

Existe também uma divisão cultural que não pode ser ignorada. Um estudo conduzido pela organização apartidária PRRI afirma que o segundo maior motivo para votar em Trump foi medo de um “deslocamento cultural”. Nas últimas décadas, os EUA vivenciaram uma imigração em alta escala. Negros e hispânicos começaram a conquistar um maior protagonismo na sociedade e homossexuais tiveram seus direitos reconhecidos. Esse progresso social preocupou um segmento da população, que teme que a sua cultura “tradicional” desapareça. Mas a questão não é tão simplista assim. Acreditar que o Trump só venceu por causa de racismo e preconceito é ignorar as diferentes esferas do assunto. A vitória do Trump também foi uma rebelião da classe trabalhadora, branca, que se revoltou contra as elites que “sabem tudo”.

O Poder da Comunicação

Finalmente, não podemos esquecer da figura do próprio Trump e como ele se comunicou com seu eleitor. O atual presidente vendeu uma ideia de grandeza americana que chamou a atenção daqueles que há tempos se sentiam desiludidos. O tema de sua campanha em geral era muito mais eficaz que o tema de Clinton. Toda a campanha de Hillary aludiu à promessa de que ela continuaria com as políticas de Barack Obama, o que não é uma mensagem atrativa para todos os americanos. Trump, por outro lado, vendeu uma ideia de revolução total e seu slogan, “Make America Great Again” prometeu uma grande mudança. Essa promessa ressoou profundamente com os setores mais marginalizados da população, que se sentiam excluídos de todo o processo. Além disso, a linguagem usada em muitos dos slogans de Clinton, como “I’m with her” (estou com ela) ou “Stronger Together (juntos somos mais fortes), não criou esse mesmo sentimento nem transmitiu o que ela queria representar. Trump constantemente enfatizou que ele “estaria trabalhando para o povo americano”, enquanto a linguagem de Clinton apontava para o fato que o povo americano estaria se reunindo “por ela”.

A verdade é que não existe um só fator que o levou à vitória. O importante é enfatizar que apesar de ela ter sido extremamente surpreendente, todas as peças do quebra-cabeça estavam na nossa frente, desde o começo. Hoje, 365 dias depois, fica claro uma coisa: para quem realmente quisesse enxergar, a vitória de Trump não era tão imprevisível assim.

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