Loading...

Desvendando a Alavancada da Extrema Direita

É indiscutível que partidos de extrema direita e candidatos populistas vem ganhando força mundialmente. Primeiro foi o BREXIT, o referendo que ninguém acreditou que fosse determinar a saída do Reino Unido da Europa. Quando o resultado foi anunciado em junho de 2016, o mundo entrou em choque. Por essa ninguém esperava, não é mesmo? No começo, preferimos acreditar que foi um erro dos britânicos, um fato isolado. Porém, isso passa longe de ser verdade.

O crescimento de partidos extremistas e nacionalistas é o resultado direto de uma combinação de fatores. O problema não se resume só ao fortalecimento desses partidos. Candidatos populistas também têm aproveitado esse “clima favorável” para conquistar o seu espaço em partidos mais centristas. Antes de qualquer coisa, é importante saber diferenciar ideologia política de discurso de ódio. Pessoas podem discordar de uma ideologia ou de uma posição, mas jamais devemos justificar ou aceitar racismo, intolerância religiosa ou xenofobia. Por isso, o crescimento desses partidos é extremamente preocupante e deve ser discutido.

Efeito Dominó

Além do BREXIT, testemunhamos a vitória do Donald Trump nos Estados Unidos e a chegada da radical Marine Le Pen ao segundo turno das eleições presidenciais francesas, algo inédito. Mais recentemente, as eleições legislativas alemãs também preocuparam a comunidade internacional. O partido extremista anti-imigração e anti-muçulmano, Alternativa para a Alemanha (AfD), ganhou representatividade no parlamento. Isso não acontece na Alemanha há 60 anos e causou um verdadeiro “terremoto político”.

E o efeito dominó na Europa continua! A extrema direita apresentou um desempenho excepcional na Áustria. O conservador Partido do Povo foi o mais votado nas eleições parlamentares. Porém, a pegadinha é que ele só conseguiu atingir esse resultado ao reproduzir o discurso radical do ultraconservador Partido Austríaco da Liberdade. O medo é que Sebastian Kurz, o novo chefe de governo, forme uma coalizão com esse partido de extrema direta, que foi muito criticado pelo seu discurso xenofóbico e apologia ao nazismo.

Nesse final de semana, a mesma história se repetiu na República Checa. O partido de extrema direita Liberdade e Democracia Direta (SPD) foi o segundo mais votado nas eleições legislativas. O líder desse partido, Tomio Okamura é anti-Europa e virou notícia quando pediu aos checos que andem com porcos perto de mesquitas e parem de “comer kebabs”. A extrema direita também cresce na Grécia e na Hungria.

Crise Econômica e Globalização

O que leva tantas pessoas a votarem a favor de partidos que pregam variações de um mesmo discurso de ódio? O primeiro fator é econômico. Muitos nacionalistas tiram vantagem do ressentimento de pessoas que sofreram fortemente as consequências de crises econômicas. Existe um estudo muito interessante, conduzido pelos pesquisadores alemães Manuel Funke, Moritz Schularick e Christoph Trebesch, que analisou 20 democracias avançadas e mais de 800 eleições desde 1870. O resultado se encaixa perfeitamente com o que estamos vendo agora: uma eleição após um período de crise econômica quase sempre beneficia plataformas de extrema direita.

Mas por que isso acontece? Porque o movimento anti-Europa ou anti-comércio internacional tem feito tanto sucesso? A chave para desvendar esse dilema é a globalização. Primeiro, temos que lembrar que no contexto da globalização, sempre há quem saia ganhando e quem saia perdendo. À medida que um país se abre à globalização, ele também se abre à competição internacional. Aquelas indústrias domésticas que não conseguem competir, saem perdendo.

Porém, jamais menospreze a capacidade de organização desses “perdedores”, que muitas vezes agem como uma maioria silenciosa. Descontentes com os resultados de um mundo globalizado, eles acabam caindo na conversa de populistas e nacionalistas, que tiram vantagem dessa polarização. Vemos isso na plataforma “America First” (América Primeiro) do Trump, no discurso do Front Nacional de Le Pen e no voto favorável ao BREXIT. Na verdade, o BREXIT é a perfeita representação da ambiguidade entre “querer controlar a sua própria vida” e “querer fazer parte do mundo”.

Populismo, Refugiados e Xenofobia

Segundo, temos que considerar o apelo histórico do populismo. Um líder populista é carismático e consegue mobilizar o apoio entre as massas. Como ele consegue essa mobilização? Apelando a reivindicações ou preconceitos incutidos entre os eleitores. O populista tem um grande problema com o “establishment” político , e ele se atrela a um discurso polarizador de “nós” contra “eles”. Esse estilo de liderança não é necessariamente conectado a uma ideologia específica ou a um partido, porém, tem sido muito aproveitado na recente alavancada da extrema direita. Figuras como Donald Trump e Marine Le Pen tinham pouco a perder e muito a ganhar, por isso, não pouparam comentários reacionários para exaltar a sua base.

Igualmente, a grande crise de refugiados botou muita lenha nessa fogueira. A verdade é que todos nós gostamos das conveniências da globalização no nosso dia a dia, mas psicológica e socialmente, tendemos a nos “tribalizar”, unindo-nos aos que se parecem mais conosco. Por isso, quando uma enxurrada do “diferente” começou a cruzar fronteiras, um sentimento de nacionalismo foi rapidamente difundido.

Isso abriu portas para políticos oportunistas, que jogaram com esse sentimento para avançar a suas próprias agendas. Líderes como a francesa Marine Le Pen, se aproveitam da ameaça terrorista para propagar ideias xenófobas, além de pintar refugiados ou imigrantes como “invasores”, que vão tirar o que é de direito do constituinte. Esse discurso é refletido no “muro” que Trump tanto já prometeu construir.

Finalmente, existe o efeito “outsider”, que ressoa bem com o contexto brasileiro. Cansados do estabelecimento político, das mesmas promessas e da mesma falta de resultados, muitos eleitores votam no candidato que vem de “fora”. Às vezes, o constituinte escolhe ignorar um discurso de ódio, somente porque esse candidato propõe algo novo, algo diferente. Ainda, o perigo vai muito além de uma vitória eleitoral. Estamos vendo movimentos supremacistas se sentido encorajados e validados pelo sucesso da extrema direita, como aconteceu nas manifestações supremacistas de Charlottesville nos EUA.

Apesar desse fenômeno estar centralizado no Norte global, as nossas eleições estão chegando ano que vem, e engana-se quem pensa que estamos imunes a essa febre. Por isso, vamos prestar muita atenção no discurso dos candidatos e saber separar o que é política do que é discurso de ódio. O mundo precisa de mais respeito e tolerância!

VOCÊ TAMBÉM PODE CURTIR OS SEGUINTES POSTS

Sem nenhum comentário

Deixe um Comentário