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Desvendando: Educação e Desigualdade no Brasil

Segundo o Banco Mundial, a desigualdade só é reduzida quando há uma diminuição na proporção de profissionais qualificados para não qualificados dentro da força de trabalho. Parece complicado, mas na verdade é bem simples: a população de renda mais baixa precisa ter acesso à uma educação de qualidade para obter igualdade salarial e de oportunidades. No Brasil, precisamos entender que existe um problema estrutural dentro do nosso sistema de educação.

De acordo com o CENSO Escolar de 2016, 78,5% dos alunos brasileiros estudam na rede pública. Além disso, a maior rede de educação básica do país está sob a responsabilidade municipal. Muito se fala sobre a discrepância entre o ensino público e o privado, mas um outro grande problema, que às vezes é esquecido, é a enorme barreira entre a educação nas zonas rurais e urbanas. Apenas 33,9% das escolas brasileiras se encontram nas zonas rurais e quando consideramos apenas o ensino médio, esse número cai para 10,2%. O acesso a internet está amplamente disponível no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste, mas não no Norte e no Nordeste. O Nordeste é a segunda região mais populosa do Brasil.

Além disso, o CENSO indica um problema grave dentro do ensino fundamental – existem diferenças expressivas entre as taxas de aprovação por série. O que acontece é que há uma baixa taxa de aprovação no terceiro ano do ensino fundamental, etapa essencial para o fim do ciclo da alfabetização do aluno. O aluno que não se alfabetiza corretamente sofre consequências durante toda a sua educação. Isso é refletido nos resultados dos alunos na competência de Leitura e Interpretação da Prova Brasil do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). Em 2012, 77% dos alunos da rede pública atingiram resultados insatisfatórios.

Agora você deve estar se perguntando: se houve aumento no investimento, porque não estamos vendo melhorias na educação? Isso é uma pergunta que precisamos fazer como sociedade. Patrícia Ellen, sócia da empresa de consultoria McKinsey, esteve presente na BrazUSC (conferência para alunos brasileiros no exterior) e apontou os cinco fatores que afetam a qualidade da educação no Brasil. Esses são: o acesso a uma educação infantil de qualidade, o aumento da jornada escolar para ao menos cinco horas por dia, o uso apropriado da tecnologia, a motivação do aluno e o protagonismo do professor.

Segundo Ellen, o importante é ter uma combinação entre instrução orientada e investigação própria, mas sempre sob a liderança do professor. Além disso, é necessário motivar o aluno, já que um aluno motivado de uma região muito pobre, tem um desempenho melhor que um aluno desmotivado de uma região rica. Investir numa restruturação educacional é importante porque no Brasil não existe mobilidade social; os ricos continuam ricos e os pobres continuam pobres. Assim, vemos quase que um determinismo: somente aqueles que tem acesso à educação de qualidade conseguem boas oportunidades no futuro. Precisamos romper com esse ciclo vicioso.

Um outro ponto importante que precisa ser discutido é a função de programas de transferência de renda no combate à desigualdade social. O programa Bolsa Família, por exemplo, teve um grande impacto na redução da pobreza, porém, o Brasil continua um país extremamente desigual. O Bolsa Família é um bom programa, mas ele está sendo aplicado de forma incorreta, pois ele só dá a porta de entrada e não a porta de saída. De acordo com um estudo feita pelos pesquisadores Paul Glewwe e Ana Lucia Kassouf em 2008, os impactos do programa na educação continuam em deficiência. A pesquisa mostra que o programa apenas aumentou as taxas de matrícula escolar em cerca de 5,5% e diminuiu o abandono escolar em 0,5% da 1a a 4a série. Os números da 5a a 8a série são similares.

O que podemos concluir a partir disso? O Bolsa Família é como um analgésico, ele alivia os sintomas da dor a curto prazo, mas não trata a doença de forma permanente, como um antibiótico faria. E qual é o antibiótico que o Brasil precisa para tratar o mal da desigualdade: educação! O Bolsa Família deve ser mantido como alívio de curto prazo para aumentar o poder de compra e também ajudar a manter as crianças na escola. Porém, pensar que ele vai resolver por completo o problema da desigualdade no Brasil é ingênuo.

Um outro grande problema é a corrupção. A questão da corrupção brasileira se estende muito além de um problema político. Um estudo conduzido pelo professor Clóvis Alberto Vieira de Melo (UFPE) mostra que em municípios onde há práticas corruptas no setor de educação, os estudantes apresentam menores índices de aprendizagem, bem como maior taxa de evasão escolar. De acordo com o pesquisador, a corrupção tira os insumos e isso impacta em menos salário para o professor, menos merenda, menos equipamento escolar. Em outras palavras, em municípios onde há mais corrupção, o Índice de Desenvolvimento de Educação Básica é menor.

Gostaria de concluir com a seguinte citação de Janaína Lima, a outra participante do painel de educação da BrazUSC: “o país que tiver a capacidade de colocar as suas crianças nos maiores índices de educação dominará o mundo”. De fato, precisamos aperfeiçoar bons programas que estão sendo aplicados de forma errada. O investimento está sendo feito, mas não estamos vendo os resultados. Por isso, precisamos repensar o modelo de educação no Brasil, defender o ensino integral, valorizar os nossos professores e investir nas escolas no Norte e Nordeste, que muitas vezes são deixadas de lado. Precisamos entender que o único e real mecanismo de mudança no Brasil é a educação.

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1 comentário

  • Lina van Erven 1 ano ago Resposta

    Excelente matéria!

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