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Desvendando: Equidade de Gênero e o Cenário Brasileiro com Maria Silvia Bastos

Pela primeira vez desde a sua criação, o Global Gender Gap Report (Relatório Global sobre a Disparidade de Gênero), apontou um aumento na média de desigualdade entre homens e mulheres. Criada em 2006, essa pesquisa é lançada anualmente pelo Fórum Econômico Mundial. No relatório anterior, estimava-se que levaríamos 83 anos para alcançar a paridade entre gêneros. Agora são 100 anos.

Segundo a ONU Mulheres, o Brasil ocupa a 32° posição num ranking de 33 países latino americanos sobre a quantidade de mulheres nos parlamentos nacionais. Apenas 9,8% dos parlamentares eleitos são mulheres. No ranking mundial de mulheres na política, o Brasil está apenas no 154o lugar.

Essa realidade não se restringe a apenas à política. Apesar das mulheres já representam quase a metade da força do mercado de trabalho mundial, elas ainda têm pouca representatividade em cargos de liderança. O relatório International Business Report (IBR) – Women in Business (Mulheres nos Negócios) mostra que o índice de mulheres em cargos de CEOs e de diretorias executivas no Brasil é de apenas 16%. Apesar desse número ter aumentado nos últimos anos, ainda temos um longo caminho pela frente.

Por isso, para discutir esse assunto tão importante, conversamos com Maria Silvia Bastos, ex-presidente do BNDES. Em 2011, Maria Silvia foi apontada como uma das executivas mais importantes do mundo pela revista Fortune. Ela também foi a primeira, e continua sendo até hoje, a única mulher a exercer o cargo de comando na Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).

Na entrevista, ela fala sobre a sua carreira de grande sucesso e analisa alguns dos principais desafios do atual cenário brasileiro.

Como é ser uma forte influência feminina num país cujo mercado de trabalho é predominantemente liderado por homens?

Meu plano de carreira era ser acadêmica, fazer pesquisa e dar aula. O que fiz, por 7 anos. Depois, pelas surpresas que a vida nos reserva, fui parar na vida executiva. E, em praticamente todas as funções que exerci, no setor privado e no setor público, fui a primeira mulher nas posições que ocupei: na secretaria de fazenda da cidade do Rio, na diretoria e na presidência do BNDES, como presidente de uma siderúrgica e de uma companhia seguradora.

Acho que ter uma formação acadêmica forte me ajudou muito a enfrentar todos os desafios e me colocar em pé de igualdade com os homens, em setores tão masculinos. Eu tenho muito orgulho em, de uma certa forma, representar as mulheres nestes cargos que ocupei. Sempre estive muito atenta e consciente disso e, em todos eles, procurei ter um olhar feminino sobre a atividade e sobre as pessoas, e propiciar igualdade de oportunidades para homens e mulheres.

Acredito que diversidade, não somente de gênero – mas também de background profissional, de idade, de região geográfica – é fundamental para o enriquecimento das empresas e para um ambiente de trabalho mais produtivo.

Numa entrevista no encontro comemorativo dos 25 anos da Fundação Estudar, você mencionou que “estado forte não é estado grande”. Em sua opinião, em que setores você acredita que o estado deveria ter participação mais ativa e de quais você acha que ele deveria se afastar?

Temos hoje no Brasil um Estado que não cabe mais dentro da nação. São mais de 150 empresas estatais federais – sem considerar as estaduais e municipais. Servidores públicos que têm remunerações, em média, 70% superiores às do setor privado, segundo publicação recente do Banco Mundial, e serviços públicos sabidamente deficientes. O déficit anual da previdência dos servidores públicos federais, em torno de R$ 80 bilhões, é mais da metade do montante do déficit do INSS. Sendo que o INSS atende a 30 milhões de pessoas e o regime dos servidores públicos atende apenas 1 milhão de aposentados e pensionistas.

Acho que, para termos o Estado eficiente que almejamos – e merecemos – afinal a carga tributária brasileira é uma das maiores do mundo, precisamos re-discutir muitas questões, inclusive a da estabilidade no emprego, generalizada, dos servidores públicos, a implantação de mecanismos de avaliação de desempenho, etc.

Estado forte é aquele capaz de oferecer um ambiente de negócios propício para o empreendedorismo e os investimentos, com segurança jurídica, facilidade para pagar os impostos, agências reguladoras eficazes, infraestrutura adequada, etc. Somente assim teremos crescimento sustentável, com geração de empregos e igualdade de oportunidades.

Para os serviços públicos essenciais, como saúde, educação e segurança, precisamos ter planos de longo prazo, com avaliação periódica, metas transparentes e conhecidas da população, para que possam ser cobradas dos governantes. O Brasil precisa ter um planejamento estratégico, precisamos saber onde queremos chegar em 10 e 30 anos.

O Brasil tem um parque industrial pequeno e ultrapassado. O que você sugeriria para incentivar o crescimento industrial, para que possamos depender menos da agricultura?

O parque industrial do Brasil não é pequeno, mas, em geral, não é competitivo. Sua produtividade vem sendo negativa, em média, nas últimas décadas, apesar dos pesados subsídios de crédito e da economia brasileira ser uma das mais fechadas do mundo. O que diferencia o desempenho da agricultura, do da indústria, são vários fatores, entre eles: a exposição à competição internacional, políticas pública e privada consistentes e continuadas de financiamento e de inovação, inclusive através da EMBRAPA, cooperação universidade-escola. Tudo isso resultando em produtividade positiva e crescente.

Por outro lado, temos setores industriais no Brasil, como o automotivo, que foi criado na década de 50 e que continua recebendo pesados incentivos públicos, como se ainda fosse uma indústria nascente. A zona franca de Manaus e a lei de informática existem há décadas e quais os benefícios (vis-à-vis seus custos) que trouxeram ao país? Estas políticas precisam ser avaliadas e extintas, se não fizerem mais sentido, pois custam caro ao país. Precisamos aumentar o grau de abertura da economia, rever a estrutura tributária da produção e do consumo, conceder incentivos fiscais e creditícios, quando necessário, mas transparentes, no orçamento da União e com metas pré-definidas a serem avaliadas em prazo determinado, para definir se continuarão ou não. E, como pano de fundo para todos os setores, educação de qualidade, que é a condição necessária para elevar a produtividade do trabalho no Brasil, cujo crescimento tem sido consistentemente abaixo da dos países com que competimos.

Fale um pouco sobre o momento de maior destaque na sua carreira.

Cada experiência que vivi foi bem diferente da outra e, em cada uma delas, tive momentos enriquecedores. Na prefeitura do Rio de Janeiro, quando emitimos um bônus no exterior, após fazer o rating da cidade e auditoria externa nas contas da prefeitura, por exemplo. Experiência única em toda a América do Sul e que nunca foi repetida. Na CSN, pelo ineditismo de uma mulher em um mundo tão masculino (menos de 0,5% dos funcionários da empresa eram mulheres quando cheguei), e por eu ter ido para lá grávida de gêmeos. Recentemente, na presidência do BNDES, em um momento tão conturbado de nosso país. Espero que muitos outros momentos instigantes ainda venham a acontecer na minha vida profissional.

Como você vê o cenário brasileiro de 2018? Quais são suas preocupações? (Em relação às eleições? Em sua opinião, quais assuntos devem estar em pauta nas candidaturas?)

Vejo com preocupação o cenário do próximo ano. Estamos num daqueles momentos críticos, de encruzilhada, onde nossas escolhas serão determinantes para o futuro de nosso país. O Brasil vem de uma crise profunda, a mais grave que já viveu. Andamos para trás em todos os indicadores econômicos e sociais, recuamos em árduas conquistas, como a da responsabilidade fiscal. Dezenas de milhões de pessoas desempregadas pagam o preço desta aventura. Precisamos cobrar dos candidatos quais serão seus programas de governo e, mais do que declarações de intenções, precisamos saber como pretendem executá-los, com que recursos, que metas, que equipes.

Assuntos cruciais em pauta são o equilíbrio fiscal e o ambiente de negócios (para os quais precisamos, pelo menos, das reformas da previdência e tributária), a reforma política, a política de segurança – integrada com estados e municípios, e, “last but not least”, os planos para educação e saúde públicas. Temos muitos casos de sucesso e de boas práticas nestes 3 serviços públicos essenciais. Eles precisam ser estudados e normatizados, para serem replicados. Isto deveria ser prioridade dos ministérios e dos governos.

Maria Silvia Bastos Marques é uma administradora e executiva brasileira, com mestrado e doutorado em economia, ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).  Foi a primeira e única mulher a ocupar a presidência da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN),  a maior siderúrgica integrada da América Latina. Foi uma das poucas mulheres a ocupar um cargo de diretoria no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Foi incluída na lista da Revista Time como a única mulher entre os doze executivos mais poderosos do mundo.

(Tomaz Silva/Agência Brasil)

Maria Silvia Bastos com Giovanna Bellotti, Maria Antonia Sendas (colaboradora) e Antonio Franco, no evento de lançamento do livro “A Moeda e a Lei”, de Gustavo Franco

 

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1 comentário

  • Marianna Sendas 11 meses ago Resposta

    Giovanna, parabéns! O blog está maravilhoso, super bem escrito e interessante! Estamos amando!

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