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Desvendando a História Monetária do Brasil com Gustavo Franco

Hoje em dia pode parecer distante, mas nas décadas de 80 e 90, a vida no Brasil da hiperinflação era bastante caótica. Nessa época, as pessoas tinham que gastar seu salário rapidamente, pois não se sabia se o dinheiro seria desvalorizado com o passar dos dias. Os mais pobres, que não podiam colocar seu dinheiro em aplicações que acompanhassem a desvalorização sofriam mais, criando um abismo ainda maior entre ricos e pobres.

Em seu livro, “A moeda e a lei”, Gustavo Franco, um dos formuladores do Plano Real e ex-presidente do Banco Central, revisita essa época de tanta insegurança. Precisamos entender sobre a inflação porque a experiência brasileira foi extrema e aumentou a desigualdade no nosso país. Além disso, a inflação continua sendo um dos temas dominantes nos debates econômicos e políticos nos últimos 50 anos e ainda continua atual, infelizmente. Antes da entrevista com Franco, proponho desvendar um pouco do contexto da história monetária brasileira.

O que é a inflação?

A inflação nada mais é do que um aumento generalizado dos preços. Não é só um preço que enlouquece, mas todos. Podemos pensar que a inflação é uma “doença da moeda”, que é o meio usado por todos para obter bens e serviços. Porém, como Franco explica em seu livro, a moeda é apenas um pedaço de papel, ela por si só não tem valor intrínseco como o ouro tinha, por exemplo. O Estado tem o poder de “fabricar” quanta moeda ele quiser e o Banco Central atende às necessidades do Governo e da economia.

Nos anos 80 e no início dos anos 90, a inflação chegou a superar os 80% ao mês, ou seja, vivemos um grave quadro de hiperinflação. Um produto podia quase dobrar de preço de um mês para o outro. Dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) mostram que entre 1980 e 1989, a inflação média no Brasil foi de 233,5% ao ano. Na década seguinte, subiu para 499,2%.

O que fez com que a inflação ficasse tão fora de controle? No Brasil, as causas da hiperinflação geralmente são associadas ao aumento de gastos públicos durante a ditadura militar, o aumento da nossa dívida externa e o choque do petróleo. Porém, o que realmente desencadeou a crise foi a necessidade de desvalorizar a moeda para manter o Brasil competitivo. Aí está a grande importância da moeda.

Planos Heterodoxos e Congelamento de Preços

Para solucionar essa crise, diversos planos conhecidos como ‘heterodoxos’ foram colocados em prática. A maioria deles preconizava o congelamento dos preços, algo que foi como uma grande “descoberta” para os políticos. Será que não bastava somente “proibir” que os preços aumentassem? A verdade é que o Brasil experimentou vários congelamentos, em planos diferentes, e todos fracassaram. O primeiro, o Plano Cruzado, deu a ilusão de que o congelamento poderia funcionar, mas aquilo era só uma anestesia.

Mas por que o Plano Real foi bem-sucedido, quando todas as outras tentativas falharam? Segundo Franco, o mais importante foi entender que a hiperinflação representava a falência de um modelo econômico e político. O modelo que nos levou à hiperinflação era um de inspiração populista, fundado em controle estatal, que encorajava o clientelismo, inflacionismo e corrupção.

Numa entrevista exclusiva para o Desvendando Política, Gustavo Franco explica um pouco mais sobre a importância da moeda nesse contexto.

O que representou para o Brasil a transição da moeda metálica (ou do “padrão ouro”) para o papel moeda?

Foi uma grande inovação: a moeda deixou de ser uma dádiva da Natureza para se tornar uma convenção, uma criatura da lei, ou seja, apenas um pedaço de papel que as pessoas são obrigadas a aceitar em pagamento. O controle sobre as quantidades fabricadas desse papel passa a ser um grande problema.

A inflação é uma consequência do papel moeda?

Sim, a inflação se torna comum e cotidiana depois que o papel moeda se disseminou. São recorrentes os episódios nos quais os países fabricam papel moeda em excesso, e com isso os papeis perdem valor. Na verdade, deu-se o nome de inflação a este fenômeno pelo qual o papel moeda perde poder de compra, ou quando todos os preços das outras coisas crescem ao mesmo tempo.

Por que tantos planos econômicos fracassaram?

Desde 1933, quando o papel moeda se tornou a forma de organização do nosso sistema monetário temos tentado controlar a sua fabricação e evitar abusos. Muitos planos para isso foram malsucedidos e os planos ditos “heterodoxos” dos anos 1980 e 1990 em particular foram especialmente desastrosos ao tentar conter a perda de poder de compra do dinheiro através de congelamento de preços. Foi como controlar uma infecção com banhos frios e com restrições ao termômetro.

O papel moeda pode acabar?

Sim. Já faz muitos anos que o dinheiro vem se tornando “escritural”, ou seja, é como se estivesse “guardado” em algum lugar e as pessoas transacionassem a titularidade desse dinheiro que ninguém mais vê. Crescentemente, a “guarda” é feita em ambiente eletrônico e também as transações. O papel moeda é cada vez menos usado.

Gustavo H.B. Franco é bacharel (1979) e mestre (1982) em economia pela PUC do Rio de Janeiro e Ph.D (1986) pela Universidade de Harvard. É sócio fundador da Rio Bravo Investimentos e presidente do Conselho de Governança do Instituto Millenium. Foi presidente do Banco Central do Brasil, e também diretor da Área Internacional do Banco Central e Secretário Adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, entre 1993 e 1999. É professor do Departamento de Economia da PUC desde 1986. Tem diversos livros publicados e mais de uma centena de artigos em revistas acadêmicas.

Giovanna Bellotti (autora do blog) e Maria Antonia Sendas (colaboradora) com Gustavo Franco no evento de lançamento de seu novo livro

 

 

 

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