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Desvendando: O Conflito Entre Curdos e a Turquia

Nesta terça-feira (30), a Turquia intensificou os seus bombardeios contra os Curdos na região de Afrin, no norte da Síria. Ouvimos muito falar sobre a Síria e a sua guerra civil, mas pouco se fala sobre um conflito diferente, que divide o mesmo espaço geográfico.

A Turquia lançou uma ofensiva no dia 20 de janeiro, contra a milícia curda das Unidades de Proteção do Povo (YPG), considerada “terrorista” pelos turcos. A situação é delicada pois a YPG é a principal aliada da colisão comandada pelos EUA, que luta contra o Estado Islâmico (EI) e controla a região de Afrin. Por outro lado, a Turquia é um aliado estratégico da OTAN.

O presidente americano, Donald Trump, fez um apelo para que a Turquia evite ações que possam causar um conflito entre tropas americanas e turcas, atrapalhando os seus esforços contra o EI. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, prontamente ignorou o apelo de Trump e prometeu levar a batalha ainda mais longe, até a fronteira com o Iraque, onde cerca de 2000 soldados americanos estão posicionados.

 Quem são os curdos e por que eles estão sendo atacados?

 A história desse conflito vai muito além da ofensiva do dia 20 de janeiro. O meio-oriente é uma região repleta de conflitos étnicos e raciais. Cerca de 30 milhões de indígenas da antiga Mesopotâmia hoje vivem nos territórios da Turquia, Síria, Iraque, Iran e Armênia. Eles são conhecidos como os curdos e, apesar de serem o quarto maior grupo étnico do meio-oriente, não possuem o seu próprio estado.

Desde o começo do século 20, os curdos expressam o desejo de criar o seu próprio estado, o Curdistão. Voltando um pouco na história, após a queda do Império Otomano e a primeira guerra mundial, o Tratado de Sevres foi elaborado, garantindo a formação de um estado curdo. Entretanto, três anos depois, Sevres foi trocado pelo Tratado de Lausanne, que criou o estado turco e negligenciou a formação do Curdistão. O resultado: os curdos ficaram sem estado próprio.

A maioria dos Curdos vive na Turquia (18% da população turca é curda) e Ancara tem continuamente trabalhado para homogeneizar o país. Assim, os curdos são perseguidos, já que o governo deseja apagar a sua identidade étnica e cultural. O atual governo, presidido pelo nacionalista Erdogan, continua cometendo atrocidades humanitárias contra os curdos. A Anistia Internacional relata episódios de tortura, estupro e fome, contra indivíduos detidos por forças governamentais.  Além disso, diversos curdos foram mortos ou deslocados.

O Conflito Armado e a Luta Contra o Estado Islâmico

 O conflito armado entre os curdos e os turcos pode ser resumido da seguinte maneira: grupos militantes curdos lutam por uma maior autonomia ou uma separação total de Ancara. O maior grupo militante curdo chama-se PKK e foi fundando no final dos anos 70, a partir da ideologia Marxista-Leninista, em oposição à repressão sofrida pelos curdos na Turquia. O YPG, alvo de Erdogan na ofensiva do dia 20 de janeiro, é o braço armado da PYD, vertente do PKK na Síria, com quem mantém boas relações.

Os curdos têm sido fundamentais na luta contra o Estado Islâmico, diminuindo o seu controle sob o norte da Síria. Devido ao trabalho dos curdos, o EI foi retraído e tanto o Iraque quanto a Síria conseguiram recuperar territórios perdidos. Os EUA já abertamente mandaram armas para o YPG, entre outros grupos curdos, para que eles lutem contra o Estado Islâmico. Erdogan expressou ressentimento, pois o YPG é considerado um grupo terrorista por Ancara.

Quem é Erdogan é qual é o papel dele nisso?

Para entender completamente o contexto da situação, é importante também analisar o papel do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Apesar de Erdogan ser um líder legítimo e eleito democraticamente, o seu governo vem se tornando cada vez mais autoritário, devido a uma falta de oposição e de “pesos e contrapesos” dentro do sistema político.

Erdogan conseguiu transformar um papel que era “cerimonial” em um veículo de poder significativo. No dia 16 de abril de 2017, ele venceu um referendo que propôs uma emenda constitucional, para transformar o sistema parlamentarista da Turquia em um sistema presidencialista. A vitória de Erdogan legitimou uma nova forma de “hiperpresidencialismo” na Turquia, que enfraquece as instituições democráticas.

O ponto em relação aos curdos é que Erdogan os persegue para legitimar a sua base de poder. Os turcos apoiam as suas ações porque ele os estigmatiza como “terroristas”. Além das ofensivas contra os grupos armados, Erdogan persegue cidadãos curdos, que muitas vezes não se sentem representados pelo PKK. A maioria das operações no sudoeste da Turquia, por exemplo, não são necessariamente contra o PKK, mas sim para reprimir cidadãos curdos.

Por que ele faz isso? Erdogan visa sabotar a base eleitoral do Partido Democrático dos Povos (HDP), um partido político de esquerda que defende os direitos das minorias. Ele persegue os cidadãos curdos, sob o pretexto de estar lutando contra o PKK, para conseguir uma “supermaioria” no congresso e enfraquecer a oposição.

E os Estados Unidos?

Voltando a ofensiva em Afrin, os Estados Unidos se encontram numa verdadeira sinuca. Ou os americanos jogam para o lado de seu aliado na OTAN e retraem na aliança com os curdos, ou eles seguem apoiando o YPG e arriscam afrontar a Turquia. O governo Trump deve tomar cuidado ao lidar com Erdogan, mas ao mesmo tempo, não pode apenas cruzar os seus braços diante dos acontecimentos mais recentes. Entretanto, a Casa Branca, vem sinalizando que quer evitar um confronto com a Turquia a todo o custo. O Pentágono, discorda. Se uma coisa que a Casa Branca de Trump é, é imprevisível. Por isso, aguardemos…

 

 

 

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