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Desvendando o Movimento Separatista na Catalunha

No dia 1 de outubro deste ano, a Catalunha organizou um referendo de independência. Dos 43% de catalães que foram votar, 92% elegeram a opção “sim”. O referendo foi declarado judicialmente ilegal pelo governo espanhol. No dia 27 de outubro, o parlamento da Catalunha votou e declarou independência unilateralmente. Menos de uma hora depois, Madrid destituiu o presidente da região da Catalunha, Carles Puigdemont. Após fugir para a Bélgica, Puigdemont se entregou às autoridades.

Em meio a tensões, protestos, polarização e um grande conflito entre o governo central e regional, eu conversei com o professor de Ciências Política da Georgetown University, Matthew Carnes, que explicou as raízes do movimento separatista e discutiu as dificuldades que a Catalunha pode enfrentar se realmente se tornar um estado soberano.

(1) Por que alguns catalães querem independência da Espanha?

Os catalães querem a independência por alguns motivos. Primeiro, eles têm uma história comum e uma identidade distinta dos outros espanhóis. Isso é uma grande parte da história deles e algo que eles sempre se lembram, o fato de terem sido conquistados pelos castelhanos e tornaram-se parte do estado central. Além de estarem muito preocupados com a redistribuição de suas riquezas para outras áreas da Espanha. A Catalunha é o motor econômico do país e os impostos que eles pagam vão para o governo federal. Isso significa que a riqueza que eles produzem é então redistribuída para zonas mais pobres do país e muitos não gostam disso. Além disso, os catalães têm uma língua em comum, o que é algo que lhes dá um forte sentido de identidade. Também existem ícones culturais como o “Barça”, o time de futebol, que dão aos catalães a ideia de que eles são melhores em tudo. As pessoas sentem que não estão ganhando a sua parte de forma justa e por isso, querem independência.

(2) Entre os catalães, quão forte é o apoio à independência?

Isso é muito interessante, porque é muito difícil registrar totalmente, porém, parece que está em torno de 50%. Então, vemos que tem muita gente que pensa que eles na verdade estarão mais fortes se permanecerem na Espanha. Eles pensam que ficariam mais fracos se de repente tivessem que pagar pelo seu próprio exército, infraestrutura e desenvolver os seus próprios recursos. Os jovens parecem gostar da ideia de uma identidade nacional catalã e os mais velhos também, especialmente. A independência é muito mais popular entre aqueles que viveram a Guerra Civil Espanhola e lembram como a Catalunha era muito mais independente antes de Franco. Então os mais jovens e os mais velhos são a favor, mas aqueles que estão no meio sentem que esse arranjo funcionou em seu benefício, então querem ficar na Espanha.

(3) Como chegamos até aqui? O referendo sobre a independência, do dia 1 de outubro, foi legal?

De acordo com a Constituição da Espanha ele é ilegal. A Constituição dá autonomia as regiões, mas elas não têm o direito de organizar um voto e escolher sair da Espanha. Porém, aqueles que realmente querem a separação, como o líder catalão Carles Puigdemont, dizem que essa é a única maneira democrática de expressar o que eles querem. Então, eles organizaram um referendo, o qual o governo central da Espanha declarou ilegal e mandou o exército para monitorar os locais de votação e retirar as urnas. O que é interessante é que algumas das tropas da Catalunha interviram e tentaram proteger as urnas. Então nós vemos um conflito no nível mais básico da definição de um estado: a capacidade de usar a força.

(4) Qual é a posição da União Europeia sobre tudo isso?

A União Europeia foi inequívoca, todos estão de acordo sobre o fato que eles não aceitam países recém-formados. Um país precisa ser pré-existente para juntar-se ao bloco e não existe nenhuma medida para àqueles que se separam e querem se tornar membros. Algumas pessoas acreditam que a Catalunha estaria melhor como membro da União Europeia, mas as coisas simplesmente não acontecem dessa forma.  Imagina o que aconteceria se a Catalunha resolvesse se unir ao Sul da França? Em essência, eles estariam excluindo todas as partes pobres da Espanha e da França. Para evitar esse tipo de situação, a União Europeia foi muito clara: eles não aceitam movimentos separatistas.

(5) Se legalmente estabelecida, quais seriam os principais desafios que o novo estado soberano enfrentaria, e quais seriam as principais vantagens?

As vantagens são fáceis, eles têm a economia ao seu lado. Eles têm os portos, as indústrias e a infraestrutura. A economia não seria um problema, presumindo que a Espanha ou a União Europeia não escolhessem retaliar. Eles poderiam implementar uma tarifa altíssima nos produtos catalães, o que impediria a Catalunha de exportar. Do mesmo modo, a União Europeia poderia decidir expulsar a Catalunha da Zona do Euro. Essas seriam opções economicamente nucleares, mas são uma possibilidade. Internamente, eles teriam que construir uma nova estrutura governamental e eleger um líder que tenha a capacidade de unir os catalães, que estão muito divididos. Eles têm sorte de terem uma economia forte, mas o resto é bastante complicado. A solução seria se unir a União Europeia, mas como já disse, não existem um mecanismo para isso e tão pouco interesse da União Europeia nesse sentido, criando assim precedentes. Eu me preocupo porque se os ricos puderem simplesmente abandonar o barco, o tecido social vai se romper ainda mais. As regiões mais pobres sempre serão deixadas de lado.

 

Matthew Carnes, S.J, é professor da Escola de Serviço Exterior e do Departamento de Governo da Universidade de Georgetown. Sua pesquisa foca nas dinâmicas do trabalho e de políticas públicas, e como a sociedade protege os mais vulneráveis. Já ganhou diversos prêmios acadêmicos, inclusive o Dorothy Brown Award for Outstanding Teaching Achievement, a mais alta distinção de Georgetown. Também já escreveu e contribuiu para diversos livros e pesquisas acadêmicas. Nos anos recentes, deu aula nas universidades de Notre Dame e Stanford.

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