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Desvendando: Quem pode estar por trás do maior ataque na Somália?

Na tarde de sábado do dia 14 de outubro, um caminhão com mais de 300 kg de explosivos foi detonado numa área movimentada de Mogadíscio, capital da Somália. Pelo menos 358 pessoas morreram e 228 ficaram feridas. Ninguém reivindicou o ataque, mas o governo da Somália e a comunidade internacional especulam que a brutalidade tenha sido obra do grupo terrorista Al Shaabab. Ouvimos muito na mídia sobre o Estado Islâmico, e sobre a Al Qaeda, mas muito pouco sobre esse outro grupo, acusado de ter orquestrado o maior ataque terrorista da história da Somália.

Para desvendar um pouco mais sobre quem pode estar por trás desse ataque, conversei com o Guga Chacra, comentarista de política internacional da Globo News em Nova Iorque.

1) O governo da Somália acusou o grupo terrorista Al-Shabaab de ter cometido o ataque que matou 300 pessoas. Quem é o Al Shabaab e o que eles querem?

O Al Shaabab é um grupo terrorista que surgiu a partir de uma organização extremista islâmica que estava no poder na Somália até 2006. Com a derrota deste regime para forças de outras nações africanas, um braço militar formado por jovens passou a adotar a tática do terrorismo. Literalmente, Al Shabaab quer dizer a juventude em árabe. Este grupo segue a vertente ultrarradical do islamismo sunita denominada wahabismo. É a mesma da Al Qaeda, do ISIS, do Boko Haram, do Taleban e da Arábia Saudita. Já a população somali segue a vertente sufista, bem mais moderada.

2) Esse grupo jihadista tem sido extremamente enfraquecido através de ações dos Estados Unidos na Somália. Como eles foram capazes de reunir recursos para planejar e executar um ataque tão brutal?

De fato, os EUA e seus aliados africanos conseguiram uma série de vitórias recentes contra o grupo. A Somália vinha se reconstruindo e havia até um certo ar de normalidade. Provavelmente, eles contaram com ajuda externa para realizar o atentado. Eu arriscaria dizer que a Al Qaeda na Península Arábica pode ter ligação. Mas isso não está comprovado

3) Qual é a relação do Al Shabaab com a Al Qaeda? E com o Estado Islâmico?

Historicamente, o Al Shabaab é ligado à Al Qaeda. Algumas facções chegaram a declarar lealdade ao ISIS, mas houve um movimento recente de reaproximação com a Al Qaeda.

4) O Al Shabaab não reivindicou o ataque. Isso é incomum já que o Estado Islâmico por exemplo, sempre reivindica as suas ações e até toma crédito por ações de outros. Porque o Al-Shabaab não fez o mesmo?

Isso é estranho. Provavelmente, não há ligação com o ISIS. Eles não perderiam a oportunidade de reivindicar. A Al Qaeda costuma demorar mais. Pode ser isso. Ou pode ser também que o impacto foi muito grande e a matança poderia deteriorar ainda mais a péssima imagem desta organização terrorista entre os somalis.

5) Desde o aparecimento do Estado Islâmico, a Al Qaeda tem saído um pouco de pauta. Você acha que devemos voltar a prestar mais atenção na Al Qaeda? Por que?

A Al Qaeda se enfraqueceu a partir do fim da década passada, ficando restrita ao seu braço na Península Arábica (Yemen). Mas houve um crescimento acentuado nestes últimos três anos. Na Síria, eles adotam outro nome. Primeiro, Frente Nusrah. Agora, Tahrir el Sham (Frente de Conquista do Levante). São o principal grupo opositor anti-Assad na Síria e controlam a Província de Idlib. Não se fala muito disso no Ocidente porque eles lutam contra Assad, Irã, Rússia e Hezbolla. Um caso que chama a atenção é Aleppo. Na parte ocidental, controlada por Assad, havia normalidade, com as pessoas podendo ir à universidade, rezar nas igrejas e mesquitas. Na parte oriental, controlada pela Al Qaeda, havia massacres. No Ocidente, porém, ficou a imagem de que seriam “rebeldes” lutando pela democracia contra o regime sanguinário de Bashar Al Assad. Esta segunda parte é verdadeira. O regime sírio cometeu crimes contra a humanidade. Mas os rebeldes nunca lutaram pela democracia. Tanto que a população celebrou a derrota deles e a vitória de Assad. Eram extremistas da Al Qaeda. O grupo terrorista também tem avançado bastante na África ocidental e no Norte da África. E chama a atenção o fortalecimento de Hamza bin Laden, filho de Osama bin Laden, que deve se tornar o líder da organização.

Guga Chacra é um jornalista, comentarista de política internacional dos telejornais da Globo News e do Estadão em Nova Iorque. É mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S.Paulo no Oriente Médio e em Nova Iorque. Também já trabalhou como correspondente da folha em Buenos Aires.

 

 

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Comments (2)

  • Luan Henrique 1 ano ago Resposta

    Ótima matéria! Muito concisa e esclarecedora. Parabéns!

  • Maria Paula 1 ano ago Resposta

    Realmente triste saber que existem pessoas tão sem-coração no mundo.
    Ótima matéria!!

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